A redenção europeia afeta as Américas? A União Europeia se rende aos legítimos anseios dos europeus, e nós?: Coluna do Ingo Plöger

O europeu comum, cidadão que acredita que a Europa formada no pós-guerra é o melhor modelo de formar a prosperidade pela democracia, paz, liberdade, justiça, tolerância e pelo respeito à diversidade cultural e ambiental chega a seus limites. Ele se manifesta em um “contundente basta”!

A Comissão Europeia, que representa o conjunto administrativo, que se formou numa Torre de Babel, que induz e conduz com grande independência o Parlamento Europeu, exagerou na dose dos remédios aplicados ao cidadão comum.

O grande tema europeu além de sua integração, agora é o da transformação climática, que se transforma em um credo, formando uma convicção política de valores e crenças, que tomaram conta de tal ordem na União Europeia, que se mostra como um dogma axiomático de crença. Encantaram o europeu comum, eleitor, de um sonho de que a Europa, seria o precursor de uma mudança mundial no clima, que seria capaz de influenciar o resto do mundo, para os seus modelos. O modelo prevê atingir objetivos até 2030 de mudanças drásticas na agricultura, até 2035 na mobilidade urbana, e até 2050 na transformação energética.

Estabelecerem este grande Acordo Verde, o Green Deal, em condições em que construíram um consenso na premissa de manter o mercado agroindustrial, assim como está agora, fechado até 2050. Estabeleceriam regras internas, de compensações para os países membros, na intermediação, por um mercado de carbono que financiaria esta transformação.

Estabeleceram regras ambientais, de saúde, tecnológicas e legais que dariam uma vantagem aos europeus frente a outras economias. Estabeleceram que seus provedores internacionais deveriam atender as mesmas regras europeias. Tudo em razão de um ambiente de crenças do “novo verde” encorajado por uma juventude ativada no símbolo da Greta Thunberg.

O plano do Green Deal se transforma em lei e as aplicações começam a se tornar realidade em diversos países. Surge uma pandemia que rompe cadeias produtivas globais, que a Europa ajudou a construir por décadas, as vezes séculos por suas colônias. Surge uma tensão de hostilidade entre a política americana e chinesa, que retira o equilíbrio econômico europeu, muito mais dependente de seus investimentos na China. E surge uma inesperada agressão bélica na Ucrania pela Rússia. Tudo isto em menos de 4 anos.

Mas o sonho continua, de que a necessidade de transformar a Europa pelo Green Deal dando realidade às medidas, sem considerar o cenário novo ao seu redor, coloca a economia em cheque. Adiciona-se a isto a onda de migrações pelo colapso político das nações do Norte da África, no Oriente Médio, onde ondas gigantescas de refugiados, buscassem na Europa se refúgio. O cristianismo já enfraquecido, o islamismo internado avançando e se arraigando na nova, a crença ambiental se estendendo, fez da integração ordenada um caldeirão de percepção de incertezas, injustiças sociais e uma perplexidade popular.

Porém não contaram aos europeus o preço do sonho do Green Deal.

Com o novo cenário, veio a inflação, juros elevados, recessão e perda de competitividade, com avanços de produtos asiáticos na Europa.

A Europa não deixa de ser um continente rico, comparado com muitos outros, porém não foi capaz de perceber que estava colocando ao cidadão comum uma carga a ser absorvida além de sua tolerância. Enquanto a economia crescia, muito se poderia ainda absorver, mas quando a economia começa a dar sinais de enfraquecimento estrutural e conjuntural, o europeu percebe que seu futuro está ameaçado. Ao não contar ao eleitor, o preço deste sonho, e a necessidade de se adaptar ao ambiente hostil, tendo que pagar mais para financiar uma guerra, num cenário internacional recessivo, com inflação de oferta, o europeu teve que colocar a mão no bolso para pagar, muito mais por seus alimentos, seu aluguel, sua energia e seu imposto, do que recebia em seu salário.   

O primeiro grito foi o fato do Parlamento alemão ter que refazer seu orçamento de 2024, por uma decisão da Suprema Corte, que não o autorizava fazer uma compensação orçamentara pela COVID, para financiar os déficits. Um país rico como a Alemanha teve que estabelecer cortes na área social, econômica e evidentemente também nas subvenções atingindo diretamente o agricultor. Janeiro, em geral os agricultores estão em casa, por conta do inverno, não estão arando, nem semeando nem colhendo, quando tiram seus tratores das garagens para os milhares irem a Berlim despejarem esterco na frente do parlamento. Pararam rodovias e estradas, e por incrível que pareça a opinião publica se juntou a eles, mesmo sendo fortemente afetados pelos protestos, que impediam ao cidadão circular pelos tortuosos caminhos congelados.

Era a chamada geral para o descontentamento e o protesto de uma população que foi encantada por um sonho, e acorda com um pesadelo, com uma carga econômica, ambiental e social que ele não mais consegue a pagar. O que aconteceu na Alemanha em poucos dias se espalha pela França, Holanda, Bélgica, e recebe apoio não só da maioria da população, mas também de lideranças empresariais.  A França reage rápido e troca o primeiro-ministro, jovem, eloquente, que para apaziguar seu povo, já declara que medidas ambientais, sociais e econômicas serão revertidas. O presidente francês no impulso político declara que as negociações entre a União Europeia e o Mercosul devem ser descontinuadas. Tudo para apaziguar os ânimos exaltados neste inverno político que se alastra na Europa.

Mas a primavera europeia promete.

O espaço político do sonho verde se desfaz com enorme rapidez. O agricultor no mundo inteiro é conservador. Ele está ligado a terra. É de lá que tira seu sustento e de lá que ele planta para seu futuro. Para onde vai o meu país, ele se pergunta?

Na ânsia de respostas do incauto urbano, que tanto fez para colocar na agricultura todo o peso da insustentabilidade, mal-entendida por políticas equivocadas de defensivos agrícolas, redução de terras produtivas, tratamento animal, desprezo pela biomassa e por aí vai, agora clama por uma politica de “soberania alimentaria”. Pensando que isto resolveria. Ironia total, para não dizer hipocrisia.

Soberania se conclama quando há risco de abastecimento de essencialidades a uma população. Na Europa, é a cada dia que alguém bate em sua porta para poder exportar alimentos, mas que não deixam importar. Soberania, era o termo que os negociadores europeus por mais de 23 anos proibiam colocar nos protocolos das negociações Mercosul Uniao Europeia, pois segundo eles era símbolo de protecionismo em um mundo cada vez mais global e livre. Agora, porém para acalmar os ânimos do europeu exaltado começam a clamar pela Soberania Alimentar. A segurança pública na Europa começa ser colocada em xeque, cada dia mais e mais são noticiados, crimes comuns e hediondos, a segurança que é um patrimônio europeu está saindo da normalidade. O cidadão europeu se manifesta no seu basta no protesto e nas próximas eleições europeias, não só pelas condições econômicas e ambientais, mas também pela política de imigração.  Uma sociedade em envelhecimento busca nestas circunstâncias segurança. No conservadorismo nestas situações, se acham as respostas mais procuradas, mas não sabemos se elas darão, pois se de um lado são mais propensos a iniciativa privada, mas são no seu extremo mais nacionalistas.

Em democracias, se a política não mudar com o anseio do eleitor, mudam-se os políticos.

Isto poderá acontecer a partir desta primavera anunciada.

O sonho está fazendo água. O Green Deal está se desfazendo. “Os parafusos, terão que ser abertos e realocados” me dizia um profundo conhecedor deste cenário europeu. Mas quais serão os parafusos a serem mexidos?

Se este é o quadro na Europa, o que isto nos ensina na América Latina?

Certamente temos aqui nas Américas, um quadro onde os anseios populares estão também eclodindo pelas expectativas frustradas e na flor da pele. Portanto todo o cuidado se faz necessário, para não termos o mesmo efeito.

Aos políticos e as lideranças, a pergunta se faz: quais são os parafusos que deverão ser soltos e quais deverão ser apertados?

Exagerar agora na questão ambiental acima daquilo que se pode pagar certamente não é sábio.

Buscar privilégios sem atender aos anseios básicos sociais é um grande risco.

Deixar o motor econômico propulsionador de desenvolvimento carregando mais encargos, aumentando a desigualdade, levar ao desemprego estrutural e conjuntural, pouco aconselhável.

Ser condescendente com a segurança pública, é não entender o primeiro mandamento para uma família nas Américas, que leva o país, à síndrome do Ecuador, no descontrole.

Se houvesse uma ordem dos fatores críticos, a prioridade poderia ser assim:

  1. segurança pública
  2. fortalecer a iniciativa privada
  3. Zero fome nem miséria
  4. Rever as políticas ambientais para não entrar na armadilha europeia 
  5. Fortalecer os ativos socioambientais e energéticas das Américas
  6. Construir alianças fortes de integração regional e internacional

Como somos mais parte da solução do que dos problemas, nossa agenda precisa ser ofensiva na busca de novas visões de fortalecimento por cooperação e menos de coerção (somente na segurança pública é diferente). A América Latina, pode sim fazer uma diferença se souber se unir nos propósitos e nos ativos comuns.

Mas por outo lado: As Américas estão muito mais suscetíveis a terem um contágio europeu, do que se pensa. Acordem políticos e lideranças, pois é mais tarde do que vocês pensam!

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