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A nova geopolitica e a geoeconomia na America Latina – Uma coluna de Ingo Plöger (Português)

Ingo Plöger | Presidente CEAL - Capitulo brasileiro

Se a pandemia já havia deslocado as prioridades da geopolitica mundial, a guerra da Ucrânia reposicionou o mundo para uma geopolitica bélica. A Europa, vizinha, reabre um mindset de guerra fria e do pós II Guerra Mundial nas suas mais sombrias lembranças. Os EUA são chamados para reassumir um papel de predominância e recoloca sua posição na OTAN. O fator novo, nesta geopolitica bélica, é a China, que no início se posiciona favoravelmente à Rússia, em função de seus interesses em Taiwan. Já na resolução da ONU, retroage, ficando em posição neutra como a Índia. A Rússia, como player em ação, fez uma série de cálculos de riscos para buscar a sua vantagem em uma situação de fragilidade econômica mundial pós pandemia, e adicionou a avaliação de fragilidade dos EUA ao saírem do Afeganistão, da Europa pós Merkel e no meio do Brexit, e uma China favorável a ela.

Porém, sabemos pela história que entrar em uma guerra é uma ação de percepção e realidade, e muitas vezes o desfecho não corresponde ao imaginário que o motivou a entrar. A Rússia estratégica e calculista – e profunda conhecedora da realidade da Ucrânia, por sua história comum – avança em território em parte favorável a ela e por outra profundamente antagônica, com uma força bélica muito superior à da Ucrânia. Seus primeiros passos na Crimeia, e agora nos Estados na Ucrânia favoráveis a ela, cautelosamente experimentaram a reação do ocidente, colocando sucessivamente grandes ameaças inclusive nucleares, enquanto avançava no território. Esta estratégia parece ter lógica e sucesso. Mas o que talvez Putin não tenha calculado é a reação do ucraniano na defesa de sua pátria e a solidariedade internacional a favor da Ucrânia. A cada dia que passa, e a não dominação do território se estabelece, a solidariedade internacional se forma conjuntamente, primeiramente contra a figura de Putin e se alastra para a Rússia. Enquanto escrevo, percebo, que se estabelece uma “russo fobia” que se torna uma obsessão, nas pessoas, onde tudo que poderia ser russo é rejeitado. Esta perda gigantesca de credibilidade de Putin atinge não só pelas retaliações econômicas, mas também de empresas que estão operando na Rússia, reduzindo ou encerrando atividades do dia para a noite.

O que estamos presenciando é uma gigantesca perda de reputação de Putin, que se alastra sobre toda a nação russa, com consequências ainda não previsíveis. Empresas afetadas por esta situação reduzem sua atuação no território russo, porém deixando portas abertas para uma possível volta.

A geopolitica bélica tem reflexos diretos, imediatos e muito severos na geoeconomia.

Para a China não interessa um prolongamento da guerra se esta afetar seus interesses geoeconomicos. A sua aliança com a Rússia, por um lado, interessa pela geopolitica bélica. Por outro lado, a China começa a perceber, com a opinião mundial voltada contra a Rússia, poderá afetar fortemente sua reputação nesta aliança. Se a opinião pública se voltar contra ela, por esta aliança, os boicotes pela preferência de mercado poderão afetar a ela também substancialmente. É o conhecido abraço ao afogado, – vai junto – se não se cuidar. Evidente que a força econômica da China é muito maior e complexa que a russa, porém contra uma imagem reputacional abalada, a China tem muito mais a perder. Esta evolução está ocorrendo em fracção de dias, muito rapidamente, e a China percebe isto. Na batalha da comunicação, a reputação está sendo perdida pela Rússia. Não temos ideia de como sairemos desta guerra, mas certamente, o preço pago será alto demais pelas vidas perdidas, pelo país arrasado, e pela reputação abaladíssima de Putin, que arrasta a Rússia e seu povo indevidamente consigo.

A América Latina, por sua vez, está longe da geopolitica bélica, e assiste e participa politicamente seu desenrolar. Notável é a participação de nações democráticas de nosso continente, independente se forem governos de direita ou esquerda, que votaram em peso na ONU contra a invasão russa. É uma atitude digna de registro, que mostra que a despeito de nossas diferenças ideológicas, os direitos universais de autonomia de Estado, liberdade e democracia são valores intocáveis. Mas a geopolitica bélica deixa fortes traços na nova geoeconomia de nossos países.

A geoeconomia que nasce desta geopolitica bélica, tem seu mais forte impacto na segurança energética e alimentar. Aliado aos dispêndios enormes dos países envolvidos em se rearmar, a inflação mundial irá recrudescer mais ainda do que o da pós-pandemia. Países afetados na cadeia produtiva global redefinirão suas estratégias de nacionalização, agora chamados de “nearshoring”. A América Latina, que sai da pandemia mais rica e mais pobre ao mesmo tempo, tem agora a seu desfavor o aumento brutal e a aceleração destes fatores, cujos impactos mais severos serão na área social e empresarial. Na área social, a pobreza será ainda maior pelo repasse nos preços das essencialidades. No empresarial, a escassez de oferta desorganizará ainda mais as cadeias produtivas globais, aumentando os preços em geral. Mas, similar ao que observamos em 2021, os resultados econômicos não serão tão ruins na América Latina como serão na Europa. Este desequilíbrio entre a pobreza e a riqueza irá se incrementar certamente em 2022 e poderá perdurar ainda dependendo do desfecho do conflito bélico.

Longe dos conflitos bélicos a América Latina pode se tornar naturalmente um “safe harbour” para investimentos, onde o “nearshoring” se transforma em “safeshoring”.

Setores estratégicos como a energia, alimentação, recursos naturais formam um conjunto de fatores de vantagens muito competitivas nestes tempos.

O nosso maior desafio é o despreparo das lideranças na América Latina de governos e economistas para enfrentar esta situação da Nova GeoEconomia de exceção. Os liberais mantem a sua postura de não intervenção na economia, e os social democratas e socialistas querem que o Estado assuma a função distributiva. Não entendem que em um estado emergencial, medidas temporárias de alto impacto terão que ser tomadas, visando a proteção do cidadão e do Estado. Parlamentos, Executivo e Judiciário precisam unir esforços na temporariedade das ações. Estratégias de segurança de um lado e de adequação situacional são a ordem do dia.

É o momento onde Acordos Estratégicos precisam ser firmados, alianças promovidas e sinergias aproveitadas. Um exemplo é o Acordo União Europeia e Mercosul, que precisa entrar em ação.  Nestas circunstancias extremas, a união está justamente em volta daquilo que entendemos com Nação e como União, ao nos referirmos aos nossos compromissos com os vizinhos e aliados internacionais.

No médio e longo prazo, a geoeconomia de um continente democrático, livre e aberto, cuja vocação está na Liberdade, Democracia e Direitos Humanos, potencias na Bioeconomia, Energia, Alimentação, Recursos Naturais sustentáveis, e na alta aceitação para a digitalização, a América Latina perante o mundo, como “A Opção “.

Se ao continuarmos apoiando o povo ucraniano em sua resiliência pela paz e liberdade, também abrirmos os braços para nossos irmãos menos favorecidos e vizinhos, nós estaremos construindo um continente de prosperidade e paz para todos.

Ingo Plöger. Empresário brasileiro, Presidente CEAL Capítulo brasileiro

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