Inflação de oferta, impactos sociais, e uma tarefa de lideranças empresariais: coluna por Ingo Plöger

Por Ingo Plöger *

A inflação de oferta é muito pior do que a inflação de demanda. Na década de 70, tivemos a difícil experiencia com o choque do petróleo, e demoraram anos para os países se adequarem a esta situação. Pós Pandemia e Guerra na Ucrania, fez com que o mundo vivesse as mesmas consequências da inflação de oferta causada pelos preços de energia e pela disrupção das cadeias produtivas globais. O combate deste tipo de inflação, não se faz somente pelo aumento de juros, para adequar a demanda à oferta, mas adiciona-se uma serie de outras medidas fiscais e de políticas públicas de substituição aos elementos inflacionários. Por um lado, se aumenta a facilitação pela importação reduzindo tarifas, e por outro buscando alternativas internas e externas de comodities para amenizar os aumentos de preços. Para reduzir os impactos sociais, muitas economias ainda aumentam os subsídios a produtos socialmente sensíveis. Em economias desenvolvidas como os dos EUA, e da EU, que estavam operando em “modo monetary easing” houve a retirada destas facilitações, aumento lento de juros e a busca de alternativas na oferta. A exportação da inflação pelo monetary easing, foi aumentada o que fez com que os países em desenvolvimento aumentassem só lentamente a sua taxa de juros básicos. A EU na busca de alternativas, subsidia mais fortemente sua cadeia produtiva alimentar e mantem fechado seu mercado na importação, e busca as alternativas energéticas internas e externas. Adiciona ainda sua agenda de mudança climática, e aumenta sucessivamente os custos energéticos e alimentares de seus cidadãos. Como a Europa, não tem memoria de combate a inflação, tem uma grande dificuldade de operar as questões sociais e econômicas, dando sequencia um ciclo de empobrecimento maior de suas classes econômicas mais frágeis. Já nos EUA, que tem opções energéticas, os impactos são menores, e como são grandes produtores de comodities agroindustriais seus impactos sociais são perceptíveis, mas menores que os europeus. Na Asia o Japão e a Coreia, como Singapura e adjacentes sofrem pelas importações majoradas em preço e tem seu impacto direto no consumidor. Em parte, repassam pelos preços da exportação ou pela variação cambial, mas nem tudo. A China cuja politica cambial é conhecida, mas pelo shot down pandêmico, teve impactos relevantes nas camadas menos favorecidas e retorna ao consumo lentamente.

Já na América Latina, as consequências são de impactos relevantes na economia quanto no social. Embora a América Latina, seja talvez o continente que melhor conheça a alta inflação e sabe como operar com rapidez e flexibilidade seu combate, pelas suas circunstâncias econômicas mais frágeis, expõe a população de baixa renda a um sacrifício muito grande. As economias de mercado da América Latina, possuem há anos um endividamento relativamente baixo, comparado com os países desenvolvidos, e um lastro de divisas aceitáveis. Porém a fragilidade da população para um aumento de preços expõe uma grande parte dela, a reduzir dramaticamente seu consumo ao ponto de chegar a itens de sobrevivência. Os países nem sempre com o poder econômico robusto, recorrem à práticas não de mercado, mas de intervenções de estado, causando distorções que fragilizam a sustentabilidade econômica. Não é de surpreender porque os eleitores na América Latina optaram por governos mais socialistas ou social-democratas, que aparentemente cuidam melhor da população fragilizada. Ocorre que

em muitas das economias LAC as exportações majoritárias de comodities e alimentos melhoram pela conjuntura as receitas, porém estas não se canalizam na sua maioria, na melhora capilar, mas retornam a grandes corporações de estado ou privadas, e o ciclo se alimenta de maior demanda social e maior na necessidade da oferta de estado. É necessário ter o cuidado de não cair na armadilha da definição da pobreza econômica, que é medida pela arrecadação das pessoas por dia ou mês. A pobreza pela escassez de oferta pode redundar que embora tivesse uma arrecadação superior ao limite da pobreza, não consegue adquirir o bem de necessidade básica (por exemplo água, eletricidade etc.). Nesta dinâmica o estado precisa saber pontualmente o que está ocorrendo nas suas populações fragilizadas para poder dar soluções focadas e eficientes. Na grande maioria de nossos Estados e Governos da LAC, percebemos que este não tem a menor ideia por onde começar, e as medidas sugerem soluções de passado de intervenções diretas do Estado para manter o mínimo necessário, que por não conseguirem, dão razão as múltiplas demonstrações de insatisfação, insegurança pública e aumento da criminalidade organizada. A demagogia e o populismo, levam a narrativas de culpados institucionais ou a agentes externos, para justificar a ineficácia de suas políticas. Por outro lado, observa-se o aumento do uso de tecnologias sociais, tanto pela população de baixa renda como por organizações, para superarem o impacto nefasto social. Em alguns casos, por utilizarem estas tecnologias, fora dos sistemas econômicos e sociais instalados fogem do “radar” e conseguem alcançar objetivos minimamente relevantes que proliferam positivamente e exponencialmente. É o momento em que Estados precisam buscar nas inovações sociais as soluções estruturantes que vão fazer a diferença. Permanecer nas soluções já comprovadamente insuficientes e economicamente ineficientes levará a sociedade à inadimplência. Uma grande tarefa de lideranças empresariais, que possuem visões menos corporativistas e mais o bem-estar de suas sociedades, em se engajar por inovações e modelos de empoderamento do cidadão frente aos interesses particulares que resultarão em mais privilégios do que oportunidades. Quando a economia é conduzida mais por privilégios do que pela competência dada por oportunidades, resulta em sociedades cada dia mais desiguais e injusta e distorcendo os princípios da boa política de bem-estar-estar comum.

Nestas circunstâncias globais, onde cada nação e região está procurando por sua solução, sendo menos solidaria, é fundamental a liderança empresarial buscar, até por sua própria sobrevivência valorizar as inovações sociais que retirem as pessoas de sua pobreza pela iniciativa e competência, escalando as mesmas dentro de seu pais e internacionalmente.

*Empresário brasileiro, Presidente CEAL Capitulo brasileiro

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