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A difícil escolha certa – Uma coluna de Ingo Plöger (Português)

Ingo Plöger | Presidente CEAL Capítulo brasileiro

O cenário internacional está se movendo rapidamente e a leitura adequada das opções se tornou bastante imprevisível.  A pandemia resultou em uma disrupção das cadeias produtivas globais, interrompendo fornecimentos estratégicos e modificando hábitos do consumidor global.

A disrupção fez com que a falta de componentes e o aumento dos gargalos logísticos causassem uma escassez de oferta. A inflação de oferta iniciou a se manifestar em vários países. Os países em desenvolvimento estavam ainda tentando gerenciar a volta da pandemia, com seu efeito colateral do desemprego estrutural de serviços, e por esta razão deixaram seus juros subvencionados para não interferir em um desemprego maior. Porém a inflação se instalou e não foi, como esperavam muitos dos Bancos Centrais, passageira. A inflação de oferta é muito mais difícil de ser combatida somente pela política monetária de juros. A última vez que as economias tiveram este efeito foi na crise do petróleo em 1972 que durou alguns anos. Investimentos pontuais, políticas  tributárias, redução de alíquotas e substituição de produtos inflacionados são o que resta.

Países em desenvolvimento, como o Brasil e outros, com memórias ainda mais  recentes de inflação elevada, reagiram rapidamente com juros elevados e políticas de abertura de mercados e tributárias unilaterais. Segue ainda o esforço de ajuda humanitária nacional dos países em sustentar áreas da população socialmente sensíveis pela pandemia, com recursos de renda      mínima no combate à fome e à miséria. Esta expansão monetária contraria a política convencional de aumento da base monetária. Enquanto o Brasil e vários outros países latino americanos elevaram seus juros até 2 dígitos, a Europa e os EUA permaneceram por meses ainda em monetary easing. Para os países em desenvolvimento como o Brasil, fornecedores de matérias primas, alimentos, rações e energias, o mundo até que não estava tão mal assim em função de serem a parte beneficiada pelo aumento de preços. A contradição se torna maior em função da elevação dos preços no próprio Brasil e países latino americanos nas áreas sensíveis de alimentação, energia e matérias primas, aumentando a inflação local. A contradição se torna evidente na política com o questionamento, como pode um país exportador de alimentos, produtor de energias, apresentar um índice tão alto de fome e miséria? Políticas de economia social (Soziale Marktwirtschaft – Ludwig Erhard) para governos conservadores e liberais são difíceis, e em nome da economia de mercado, se abre o flanco no combate à fome e à miséria.

Mas como se isto não bastasse, a Guerra da Ucrânia colocou nesta dinâmica internacional um vetor ainda mais difícil, o da segurança, que ultrapassa outras razões econômicas e políticas. Entra em jogo não o racional econômico, mas o avaliativo político, de percepções e o das decisões de amigos, adversários ou inimigos. Quando este componente entra na equação das decisões, o campo se torna ainda mais inseguro e imprevisível.

De repente, a geopolítica entra nas decisões de médio e longo prazo, tentando se adequar as de curto prazo da melhor maneira possível. A Europa, agora muito próxima da Guerra da Ucrânia, busca por soluções para não estimular mais a Putin em sua audácia ao mesmo tempo não levando o escalonamento a dimensões incontroláveis. O que parecia ser uma guerra rápida, agora mais parece uma guerra de trincheiras de longa duração.

Enquanto isso, nos EUA, as lentas decisões no combate inflacionário levam a economia que exerce um poder monetário muito grande no mundo, a ter vantagens e desvantagens nessa lentidão. De um lado, a inflação disparou, por outro o dólar é valorizado, na contramão pela busca de um “ save harbour”. Diferentemente da Europa, que pela desvalorização de sua moeda, se torna mais competitiva, embora a inflação interna esteja em dimensões há muito não vistas. A Europa, em particular o Parlamento Europeu, está mais “verde” e ambientalista e justamente eles têm que tomar decisões sobre prolongar a vida de usinas energéticas que sempre combateram, como as nucleares e as de carvão. Juntam-se neste esforço uma posição dogmática do Green Deal , onde por compromissos com os eleitores, fecham o mercado até 2050 em nome da mudança climática, para provocar as mudanças ambientais internas.

O problema destas políticas de visão regional e não global, mais dogmáticas que racionais, é que elevarão o preço de alimentos e energia aos europeus muito além do necessário. Ou seja, tornarão a Europa além de fechada, menos competitiva do que o resto do mundo. No dia que o eleitor europeu descobrir isto terá a percepção para votar adequadamente ou tenderá a ir a um dos extremos, como experimentamos na América Latina?  Mas esta ainda não é a última      dimensão desta dinâmica.  A  China, o Oriente Médio e também a Índia tenderão a reestabelecer suas políticas domésticas e suas alianças internacionais. A China buscará fortalecer sua posição de mercado e manter a sua influência onde ela já o tem. As empresas chinesas que operam no exterior terão certamente orientações mais contundentes. As empresas internacionais na China serão mais observadas em função de seus movimentos de investimentos e desinvestimentos e os terceiros mercados serão mais cobiçados. Neste último aspecto, a América Latina será atenção de investimentos tanto chineses, asiáticos, americanos e europeus.

Embora uma parte dos países latino americanos esteja com governos social democráticos ou socialistas em democracias, o regime político de democracias é um valor intrínseco elevado nos dias de hoje. Pode parecer paradoxal, mas as políticas mais pragmáticas se sobressairão às dogmáticas.  As dogmáticas exigirão de seu povo um sacrifício econômico muito acima do necessário e terão tensões muito grandes a resolver, já que a inflação de oferta não se resolve de um dia a outro somente por juros altos.  Mas as pragmáticas também terão que atender a população menos favorecida  em risco de fome e misérias com políticas sociais de mercado. Aqui somente a restrição ao mercado é justificada , onde ele não consegue resolver o abastecimento mínimo que dê  dignidade de vida e precisa de soluções complementares. O Brasil, neste particular, tem o modelo da Bolsa Família, aprimorado por mais de 25 anos em mais de 5 governos distintos, onde a renda mínima exerce a função de tentar não deixar ninguém para trás.

Estamos em épocas difíceis e excepcionais e é necessário tomarmos decisões difíceis. Não só para governos, mas para as lideranças em geral, nas empresas, nas instituições, e nas famílias. O empresário neste cenário precisa rever seus planos várias vezes, saber ouvir as diferentes opiniões e ter a coragem de alterar se necessário seus objetivos.

Mas é isto que distingue os bons líderes, que não se furtam a tomarem decisões difíceis frente a enormes resistências e incompreensões, desde que elas sejam…

…decisões certas, tomadas de maneira certa desde a primeira vez.

Ingo Plöger. Empresário brasileiro, Presidente CEAL Capítulo brasileiro

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