Nearshoring e safeshoring: transformando cadeias produtivas globais – uma coluna em português de Ingo Plöger

Nearshoring, como adjetivo para a nova orientação da localização de posições estratégicas, busca reduzir o risco do desabastecimento global, trazendo para “mais perto” as industrias estratégicas da Cadeia Produtiva Global (CPG) 1).

A pandemia deslocou o centro de gravidade das CPG do consumidor para o fornecedor. Se antes o poder de compra do consumidor e suas variações de preferencias, eram o foco total das atenções, a pandemia pelo seu descompasso, aumentando exponencialmente a demanda para os eletrônicos e reduzindo a oferta para a mobilidade colocou a escassez na área da oferta. A oferta por eletrônicos em especial para os semicondutores, fez com que a indústria reconhecesse a escassez e a extrema vulnerabilidade para poucos ofertantes. A localização desta indústria na maioria é na Asia. Para aumentar a dramaticidade, incidentes nestas industrias fizeram parar a produção por algumas semanas e meses, aumentando o risco do abastecimento global. A pandemia durou mais do que imaginávamos, e o consumidor experimentou a demanda pelo digital, na logística da última milhagem, e percebeu que funcionava bem, e a colocou em sua preferência.  A CPG respondeu na velocidade das demandas e além dos semicondutores outra escassez se fez presente, o da logística pelos containers, das embalagens pelos ré empacotamentos, e de matérias primas que requeriam a indústria de transformação com operadores em regime presencial. A globalização teve se teste de stress nestes dois anos, por onde percebeu a vulnerabilidade das CPG, ao concentrar demasiadamente algumas produções em giga produções e em lugares competitivos, porem concentrados em poucos países ou regiões.

Enquanto o consumidor buscava no dualismo preço e qualidade suas opções, a oferta fazia esta corrente do CPG crescer nesta direção. Não se pensava que uma pandemia poderia ocorrer nas dimensões, que veio em termos mundiais. Os transportes colapsaram, as demandas de produtos como automóveis não puderam ser atendidas, seguidos de outros produtos que incorporavam semicondutores.  Na retomada do pós pandemia, os serviços voltaram a se dinamizar e produtos de consumo antes em menor escala começaram a se reposicionar. A falta de outras matérias primas, assim como sua transformação se fizeram notar. Neste meio tempo, com a enorme falta de solidariedade internacional pelo desabastecimento de vacinas aos países menos favorecidos e o aumento dos preços dos alimentos, movimentaram a ONU para buscar políticas de segurança alimentar e de saúde 2). Meses depois Glasgow debatia os novos objetivos globais de descarbonização das CPG e as metas para 2030 e 2050 de mitigação do GEE. O stress para as CPG estava chegando a seu ápice, como se não bastasse a pandemia os três outros vetores, o da pobreza crescente, da saúde global e da descarbonização colocaram novos parâmetros no processo.

Nearshoring parecia ser uma das soluções para responder a este desafio.

Se colocássemos a oferta mais próxima da demanda estaríamos aumentando a segurança do suprimento e encurtando os caminhos do CPG. Países e regiões (a exemplo da EU) iniciaram políticas de repatriar investimentos estratégicos para suas localidades. Assim os EUA, a Alemanha entre outros investiram em novas fabricas de semicondutores, políticas mais protecionistas na cadeia alimentar foram promulgadas (EU) para fazer frente à escassez sistêmica que se instalara, para combater a inflação de oferta.

Mas a Guerra da Ucrânia redesenhou a estratégia da escassez da oferta por outro vetor até então não considerado. A União Europeia por sua dependência energética da Rússia, e de seu maior cliente e fornecedor China, se encontra em uma situação dificílima de equacionar sua matriz de risco e oportunidades, com os dois players diretamente e indiretamente ligados no litigio. Como se não bastasse a OPEP, insensível e oportunista deixa o preço do barril de petróleo subir muito além dos US$/100barril, o que acelera a inflação de oferta ainda mais. Embora os EUA liberassem suas reservas estratégicas de petróleo, não foram suficientes para baixar os preços energéticos significativamente. O conflito bélico e suas consequências não serão resolvidos no curto prazo.  A ambiguidade da EU perante a Rússia e a posição dúbia da China frente ao conflito, deixam os países desenvolvidos a buscar por novas estratégias de médio e longo prazo.

O Nearshoring já não é mais suficiente para assegurar a previsibilidade nas CPG. Algumas das alternativas que se apresentam não são mais suficientemente seguras. Outros objetivos consensados em Glasgow ou na ONU já não se apresentam como urgentes nem prioritários.

O Nearshoring começa a ser substituído pelo Safeshoring; ou seja, perto não necessariamente é mais seguro. Muitas tendencias mais nacionalistas de “home made” ser melhor do que o importado, chegam a levar políticas protecionistas em escalas não imagináveis antes. Assim a União Europeia que liderava mundialmente a política da sua agricultura sustentável, em poucas semanas autorizou o plantio em áreas destinadas à recuperação vegetativa natural para soja entre outras. O uso mais prolongado de carvão ou de usinas nucleares de um dia para o outro foram reestabelecidas.  Já nas CPG estratégias alternativas do Safeshoring, rotas de safe-live e safe-fail começam a serem construídas. Safe-live na saúde, segurança e alimentação e safe-fail na energética nos processos e na logística.

Mas o Safeshoring também recebe novas atenções. Continentes ate então predominantemente democráticos, sociedades abertas de livre imprensa e estado de direito, recebem atenção dobrada. Em poucas semanas, bolsas de valores na América Latina, não tem uma evasão de divisas, como o foi em tempos de crises anteriores, mas pelo contrário, tiveram fluxos de investimentos inesperados. Em parte pela alta de juros, para o combate à inflação, em parte por seus ativos serem ainda baratos e em parte por estarem em “portos seguros”. Especialmente os EUA, mas também países europeus reposicionam a América Latina em suas estratégias de Near & Safeshoring 3). A própria América Latina em suas maiores divergências politicas e estruturais se percebe mais unida por oportunidades e propósitos. Embora ninguém deva buscar vantagens na desgraça alheia, não podemos ignorar que décadas de paz e democracia tem um valor em si, somente percebido em épocas de guerra e escassez.

 

 

Ingo Plöger e um empresário brasileiro, Presidente CEAL Capitulo brasileiro

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