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Exame, Brazil, March 1, 2007

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Divergências entre Brasil e EUA são pequenas, diz embaixador

 | 01.03.2007

Para o embaixador americano Clifford Sobel, as disputas comerciais entre os dois países representam a menor parte de uma relação bilateral bem-sucedida

 

Por Gustavo Paul

EXAME Na primeiro entrevista à imprensa brasileira desde que chegou ao país em agosto, o embaixador dos Estados Unidos, Clifford Sobel, aposta no crescimento dos negócios entre os dois países, mas teme que o discurso esquerdista de Hugo Chávez possa contaminar a percepção externa sobre os demais países do continente e afastar investidores. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

EXAME - O senhor já disse que o Brasil e Estados Unidos têm um bom relacionamento, mas que poderia ser melhor. Qual é o caminho?

Clifford Sobel - Sinto um imenso otimismo em torno das relação entre Brasil e Estados Unidos. A questão é saber como ela pode melhorar e como podemos torná-la melhor. Existem muitas áreas em que trabalhamos juntos e podemos expandir. E novas áreas podem ser desenvolvidas. Vi, em Salvador e Recife, o negócio do turismo crescendo. A questão é simples: onde estão os turistas americanos? Eles não estão lá. Essa é uma área para trabalhar e já conversei com o ministro do Turismo [Walfrido Mares Guia]. Esperamos poder conversar com outras pessoas interessadas em trazer vôos adicionais para Salvador e Recife, e que estejam procurando oportunidades de investimentos para mais adiante trazer turistas americanos a uma das partes mais bonitas do país.

EXAME - Além do turismo, haveria outras áreas?

Sobel - Podemos olhar também para o biocombustível, no qual ambos os governos têm um foco importante em pesquisa e desenvolvimento. Podemos estar fazendo de forma diferente, com culturas diferentes - aqui com cana-de-açúcar e nos Estados Unidos com milho -, mas os dois países estão de olho em celulose, a próxima geração de biocombustível. O ponto é que essa é a perfeita oportunidade de cooperar, de trabalhar conjuntamente. A palavra que gosto de usar é parceria. Adoro essa palavra. Estive em Belo Horizonte, que tem um ótimo prefeito e um ótimo governador e jantamos juntos. Falamos sobre a perspectiva de ter ali um verdadeiro aeroporto internacional, quem sabe uma zona de comércio livre. Queremos trabalhar com o governador e o prefeito para poder trazer companhias americanas. Temos a Câmara Americana de Comércio, em São Paulo, a maior do mundo. Temos 200 das nossas maiores companhias já instaladas no Brasil. Por que não passar um dia em Belo Horizonte para ver as oportunidades?

EXAME - O senhor acha que o atual governo brasileiro quer a mesma coisa?

Sobel - Temos muitas coisas em comum. Somos duas nações continentais, temos os mesmos valores, os mesmos objetivos para nossa população, acreditamos firmemente em democracia. O que eu procuro é trabalhar com o setor público e com o privado para podermos ver onde existem mais oportunidades. Acho que não é uma questão de ideologia. É uma questão de obter resultados. E é nisso que estou focando minha atenção. Eu não quero discutir ideologia. E nosso governo também não quer. Tom Shannon, nosso secretário-assistente [para assuntos do hemisfério ocidental] disse que não se trata de uma questão de direita ou esquerda. Não é uma questão de apenas ser eleito democraticamente. Queremos trabalhar com países que governam democraticamente. O Brasil é um dos países com quem nós já temos um excelente relacionamento. Nossa oportunidade, minha oportunidade, a oportunidade da embaixada é torná-la ainda melhor.

EXAME - O senhor citou recentemente um artigo da revista Latin Business Chronicle que diz que o Brasil está perdendo a batalha para se tornar uma economia globalizada. Quais correções de rota deveriam ser feitas?

Sobel - O Mercosul obviamente foi importante para o Brasil avançar seu comércio e é um relacionamento comercial e político de sucesso. Mas acho que o país tem oportunidade de fazer muito mais, incluindo-se aí o aprofundamento dos laços comerciais como os Estados Unidos. Brasil e Estados Unidos são parceiros naturais e o entendimento entre os dois não se baseia apenas na integração e no comércio regional, mas também na cooperação e comércio hemisféricos. Estamos muito interessados em trabalhar com o Brasil em segurança regional e na prosperidade do hemisfério. O Brasil já está engajado em assumir o papel de líder regional. Veja a missão no Haiti. O Brasil está lá com grande número de soldados e recursos, focado em trazer segurança a uma ilha que tem muitas tragédias. E portanto nós olhamos para a liderança regional e global do Brasil.

EXAME - Mas em uma palestra no Conselho das Américas, o senhor chegou a se perguntar se o Brasil não estaria em melhor situação se assinasse um acordo bilateral de investimentos com os Estados Unidos, como ocorre com o Uruguai.

Sobel - Temos acordos bilaterias com muitos países. Países tomam decisões porque eles consideram que é o melhor para eles. Eles não tomam decisões porque um embaixador disse que eles devem tomá-las. Eu acredito no que [o economista] Jeffrey Sachs disse: a globalização é realmente o modelo para reduzir com sucesso a pobreza global. Globalização cria oportunidades de investimentos. E uma economia não pode crescer sem investimentos. Com investimento, vem inovação. Com inovação, vem a habilidade de ser mais produtivo e competitivo, aumentar o comércio e com isso, estimular o crescimento da economia e o surgimento de mais empregos. Isso é uma oportunidade global para os países. Existem empresas na Europa, Japão e Estados Unidos procurando oportunidades. E elas só vão para onde o ambiente regulatório é mais eficiente, onde há mais transparência, e onde há mais oportunidades.

EXAME - E o senhor acredita que o Brasil tem todas essas condições para atrair mais investimentos?

Sobel - Creio que essa é a melhor hora para o Brasil. O presidente Lula foi reeleito por muitas razões. Uma delas foi a prosperidade e a estabilidade que existe no país. E quando as pessoas decidem fazer investimentos eles procuram estabilidade. A Ford acabou de anunciar um significativo investimento de 2 bilhões de reais. Há oportunidades de investimento em todo o mundo. Por que eles investiram aqui? Tem de perguntar a eles, mas uma das razões é porque eles obviamente estão tendo bons resultados. Mas também eles sabem que podem prosperar e que há estabilidade. As coisas estão muito bem aqui. A questão é saber como elas podem melhorar ainda mais.

EXAME - O senhor costuma citar o aumento de 80% no comércio entre Chile e Estados Unidos em razão dos acordo de livre comércio assinado entre os dois. O mesmo poderia ocorrer com o Brasil?

Sobel - Chile não é Brasil. Há muitas diferenças entre os dois países. O Chile é um país que está mais orientado para a exportação. E está concentrado em alguns setores. Mas é um exemplo. Eu não vou entrar na discussão se o país deve ou não fazer acordos. O importante é que uma série de questões que são importantes para os Estados Unidos e para o Brasil não podem ser incluídos em um tratado bilateral. Os dois têm a atenção focada em Doha. Estamos esperançosos em uma conclusão bem-sucedida da rodada Doha, da OMC, que pode trazer mais benefícios para a globalização e a economia global. E é uma plataforma para levar adiante nossas relações comerciais. Mas a relação com o Chile é um exemplo do que nosso país está fazendo. Mas diferentes países fazem diferentes negócios. Nenhum país tem o melhor modelo. Cada um tem o seu próprio modelo. E o que quero fazer é encontrar formas de parceria com o Brasil. Estive com o governador [de Pernambuco] Eduardo Campos recentemente. Foi a primeira vez que a Câmara Americana de Comércio de São Paulo mudou a reunião da diretoria para fora da cidade e a levaram para Recife. E falei com o governador: sente-se com as companhias americanas, faça-as conscientes quais as possíveis oportunidades para elas. O mesmo foi feito em Belo Horizonte. Vou ao Rio procurando formas de cooperação. Estamos procurando oportunidades.

EXAME - Mas existem problemas comerciais entre os dois países. O Brasil tem sérias dificuldades em vender para os Estados Unidos produtos como etanol, suco de laranja, produtos têxteis e aço.

Sobel - Aço é um bom exemplo. Houve um tempo em que nossa indústria doméstica estava preocupada com as importações. E entendemos que havia uma concorrência injusta. Agora essa questão ficou para trás. Hoje pode ser uma questão de produtos agrícolas, ou commodities amanhã. Essas questões fazem parte do comércio internacional. Mas quando se olha esses elementos em comparação ao total das negociações internacionais, eles assumem uma dimensão pequena. O que devemos olhar é que questões ligadas a biocombustíveis hoje, o aço ontem, são uma porcentagem muito pequena em relação ao nosso comércio global. Olhe quanto comércio e investimentos temos que são bem-sucedidos.

EXAME - A presença da Venezuela no Mercosul pode conturbar a relação entre o bloco e os Estados Unidos para um possível acordo comercial?

Sobel - Não somos membros do Mercosul e não podemos falar dos membros do bloco. Estamos procurando áreas de cooperação não importa onde eles estão. Nós olhamos para o Mercosul e defendemos o conceito de integração regional, que estejam fundadas nas regras da OMC. E procuramos cooperar com países e organizações multilaterais desde que eles tenham as mesmas raízes de democracia e que estejam engajadas nas regras da OMC. O mais importante é acreditar na conclusão com sucesso da rodada Doha.

EXAME - E o senhor acredita no sucesso de Doha?

Sobel - Susan Schwab [representante de Comércio dos Estados Unidos] disse recentemente que ela está otimista, mas também ela é realista. Eu sou mais otimista atualmente, depois de Davos [a reunião do Fórum Econômico Mundial, em janeiro]. Estamos na direção certa. Acho que todas as partes envolvidas na negociação entendem que estamos dando um passo importante e todos os países e grupos precisam ser flexíveis.

EXAME - Numa entrevista recente, o diplomata Roberto Azevedo, chefe dos negociadores brasileiros para a Rodada Doha, declarou que os Estados Unidos seguem na contramão da liberalização do comércio, sobretudo o agrícola, pois estão aumentando os gastos com subsídios aos produtores. O que o senhor achou dessa declaração?

Sobel - Não sei como alguém poderia fazer tal afirmação, já que a proposta da administração Bush para a Lei Agrícola de 2007 prevê 10 bilhões de dólares a menos em gastos do que a Lei Agrícola de 2002 gastou ao longo dos últimos cinco anos (sem contar assistência emergencial a desastres). Isso demonstra que os Estados Unidos estão prontos a aceitar cortes em nossos programas domésticos de apoio à agricultura. Agora é o momento para que outros países que participam da Rodada Doha de negociações mostrem que estão dispostos a cortar tarifas e oferecer acesso significativo a seus mercados para nossos produtos, algo que ainda não vimos.

EXAME - O senhor também acredita em Alca?

Sobel - Eu disse que não podemos nos engajar em nenhum acordo sem antes ver o que acontecerá com Doha. E aí eu vou procurar me engajar em qualquer arena de investimento e negócios que o Brasil estiver interessado. Doha é o modo mais simples de buscar a globalização e o crescimento econômico.

EXAME - O senhor já disse que os americanos estão preocupados com Hugo Cháves. Qual é o real perigo que Cháves?

Sobel - Recentemente, [o presidente do México, Vicente] Calderón disse que se alguns países querem deixar mercados da América do Sul eles são bem-vindos ao México. O presidente da Colômbia disse também que o mais importante para o crescimento econômico são investimento e mercado aberto. Onde há insegurança em fazer negócios, onde não há estabilidade – e disse que a força hoje do Brasil é sua estabilidade – e insegurança isso cria preocupação. E muitas vezes as pessoas não fazem pequenas distinções e olham a área geográfica. Minha preocupação é se vai haver ruptura ou se vai permitir a existência de companhias, de private equity ou venture capital. Talvez olhando para aquela região geográfica, os investidores vão se perguntar: eu deveria ir para outro lugar? Minhas preocupação é que muitas pessoas vão olhar para aquela instabilidade e insegurança e vão tomar decisões de investir onde as condições são mais estáveis. E muitas vezes as pessoas não fazem distinção que sempre param nas fronteiras.

EXAME - E o senhor vê os mesmos problemas no Equador e na Bolívia?

Sobel - Ainda é cedo para falar do Equador. A Bolívia é uma questão diferente. É saber se eles vão seguir os contratos. Estamos esperançosos em que as companhias que investem ou pensem em fazer investimentos continuem considerando a Bolívia, por causa das pessoas da Bolívia. Mas no final, as companhias vão tomar decisões de acordo com seu melhor interesse. E de novo, ali há instabilidade e insegurança.

EXAME - O presidente Lula, nesse contexto, pode assumir um papel de mediador entre esses países e os Estados Unidos?

Sobel - Lula fez um grande comentário, que eu anotei. Ele disse ao lançar o PAC que não vai haver crescimento enfraquecendo a democracia. Isso foi uma grande coisa. Ele é um bastião da democracia e da estabilidade e pode cumprir um importante papel regional e global. Hoje, o Brasil é um líder regional, mas também global. E não apenas pelo seu engajamento no Haiti ou no G20, mas por outras questões. Há muitas questões em que o Brasil está envolvido, como biocombustível.

EXAME - Segundo vários analistas, a recente visita do secretário Nicholas Burns faz parte de um projeto de intensificar as relações com o Brasil, a fim de contrabalançar a influência de Hugo Chávez na América do Sul. Essa análise é correta?

Sobel - Como o subsecretário de Estado Nicholas Burns disse durante sua recente visita ao Brasil, nosso foco para a América do Sul está em nossos amigos, no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia, no Peru, no Equador e em todas as nações que são nossas amigas. Em Washington, nós estamos tentando seguir uma agenda positiva. Nossa agenda com Brasil, Argentina, Peru e outros países é positiva. A agenda com Chávez não é. Nós não passamos todo nosso tempo pensando no Chávez, mas pensamos no Brasil e na Argentina e em todos os nossos amigos.

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